SESSÃO FANTASMA #1: O PRESENTE – 01/07/2020

Com este ciclo de conversas, o Coletivo Fantasma pretende dinamizar um espaço informal de diálogo, dedicado a  promoção do debate e do pensamento crítico em torno de temas centrais da cultura contemporânea nas suas mais diversas manifestações e expressões.

Neste primeiro ciclo, partindo metodologicamente de uma perspetiva essencialmente local, o enfoque das conversas visa o aprofundamento de questões ligadas a um território que nos é comum e centra-se em temas como a Política Cultural, a História, o Património Material e Imaterial, a Criação Artística Contemporânea, a Formação Artística e de Públicos, o papel do Associativismo Local, a urgência da Crítica Cultural, as Novas Tecnologias ou a definição de Novas Estratégias Para a Cultura.

Através de uma reflexão acerca do Passado, do Presente e do Futuro da Cultura em Torres Vedras, as sessões fantasma convocam para o debate, além de alguns convidados, a sociedade civil e o tecido associativo local, procurando a afirmação de um espaço dialógico e de pensamento partilhado, isento, democrático e aberto a todos os interessados.

Sessão Fantasma 1# – O Presente – E Agora Respiramos?

A primeira edição das Sessões fantasma realizou-se no passado dia 14 de junho, no Quiosque Alfazema, e contou com a presença e participação de Linda Valadas (AREPO) Magda Matias (Estufa – Plataforma Cultural) e Rúben Monteiro (Associação MusicÁlareira), tendo como moderador Jorge Reis (EMERGE A.C) e um apontamento performativo inicial desenvolvido por Linda Valadas e Christian Marr’s.

Do conjunto de questões abordadas, apresentamos, agora, o documento síntese desta sessão registando algumas conclusões que nos parecem pertinentes e que merecem reflexão futura.

Após a apresentação dos participantes e das áreas de atuação das suas associações, o primeiro tema abordado foi o das estratégias implementadas face ao contexto atual de pandemia. Grande parte das ações desenvolvidas relacionam-se com o estabelecimento de estratégias de networking e uma migração para plataformas virtuais como media privilegiado para o estabelecimento de ações à distância (aulas, reuniões de trabalho, apresentação de trabalho artístico).

No âmbito das iniciativas do Município de Torres Vedras no período de isolamento social, foi unânime a referência e o elogio ao projeto Emergência Cultural, representando o mesmo, para os convidados, uma iniciativa louvável e que marcou uma rápida e eficaz resposta no apoio à criação artística.

Em seguida, foi referenciada a necessidade de as associações criarem soluções financeiras capazes de garantir a manutenção dos seus colaboradores e trabalhadores contratados. Neste sentido, constatou-se que as pequenas estruturas possuem uma maior facilidade em adotar estratégias de resiliência perante o contexto de crise. Citou-se o exemplo da Casa da Música e de Serralves como estruturas que tinham a obrigação, devido ao alto investimento estatal de que dispõem, de garantir os postos de trabalho dos seus colaboradores e apresentarem mecanismos de resposta capazes de atenuar os efeitos da Crise.

Não obstante, todos os convidados concordaram que grande parte dos problemas que assolam a classe artística são pré Covid e relacionam-se com a incapacidade dos Governos em criar estratégias sociais e políticas laborais capazes de corresponder à realidade precária de muitos trabalhadores da Cultura e das Artes. Este tipo de políticas não se poderá cristalizar apenas no financiamento através de concursos, mas terá de ser ponderado um conjunto de medidas económicas e sociais capazes de mitigar algumas assimetrias com que a classe artística se depara. Não falamos apenas de artistas, mas de técnicos e de todos os envolvidos nos processos de produção artística e cultural.

No que se refere aos artistas e trabalhadores independentes, torna-se essencial que as instituições públicas sejam capazes de criar estratégias e medidas que permitam apoiar a classe e as estruturas emergentes, que, por norma, veem os mecanismos de financiamento vedados à sua participação. No âmbito desta questão foi sugerido que o Município de Torres Vedras criasse um Gabinete de Apoio às Artes, estabelecendo um mecanismo capaz de agilizar processos e de combater alguma burocracia e inacessibilidade da Área de Cultura.

Por outro lado, foi questionado de que forma se poderá promover o investimento privado em Cultura e dinamizar a atualização de algumas políticas que permitam promover as práticas de Mecenato privado. Do mesmo modo foi referida a necessidade das associações culturais se tornarem mais permeáveis à colaboração com agentes externos e artistas independentes, de forma a estabelecerem outro tipo de relação criativa e de cidadania.

A vida cultural e artística de uma cidade não pode depender única e exclusivamente do poder político. Um dos aspetos que foi referido neste encontro é a excessiva e “quase paternal” intervenção da Autarquia nos processos artísticos e culturais, sendo a Câmara Municipal de Torres Vedras o maior distribuidor de oferta cultural e promovendo uma improdutiva lógica de dependência das associações e agentes culturais locais, seja a nível do financiamento, seja a nível dos próprios equipamentos culturais locais, maioritariamente geridos pela Autarquia.

Numa perspetiva complementar, foi referida a necessidade de fomentar a participação privada nos âmbitos da produção e distribuição de oferta cultural e artística. Sendo a concordância neste ponto praticamente unânime entre oradores e público presente, parece-nos que será um tema que merece ser aprofundado numa futura sessão.

Alguns tópicos recorrentes em toda a discussão referiram-se à oposição entre práticas artísticas e entretenimento ou a impossibilidade de quantificar o valor financeiro do esforço artístico, estando o mesmo dependente de valores simbólicos incalculáveis. Neste âmbito, foi ainda referida a necessidade da própria classe artística se organizar e coletivizar, procurando criar estruturas organizadas capazes de defender os seus interesses e de lutar pelos seus direitos. Foi, ainda, discutida a pertinência de um rendimento básico universal como ferramenta de equilíbrio social e fator de dinamização económica.

Por fim, os presentes concordaram que o desafio ainda agora está a começar e que a adaptação das suas estruturas ao processo de desconfinamento será, aos mais diversos níveis logísticos e financeiros, um processo delicado face ao conjunto de incertezas com que se deparam. Neste sentido, será importante promover um maior diálogo entre associações e criar novas sinergias.

 

Torres Vedras, 22 de junho de 2020
Coletivo Fantasma