CRÓNICA – 01/06/2020

“Isto não é bem uma história da noite” – Luís Filipe Cristóvão

Como na Crónica de uma morte anunciada, do Gabriel García Márquez, começo esta história pelo fim. Não, ninguém morreu. Mas em abril de 2001, no edifício da antiga Cooperativa Agrícola de Torres Vedras, ali na Rua Santos Bernardes, era lançado o número zero da revista literária “quase”, uma edição do Académico de Torres Vedras.

A génese desta revista aconteceu na noite da cidade, algures entre bares e cafés que fizeram itinerário de gente que não estava bem em lugar nenhum. Todos, no entanto, queríamos coisas parecidas. Escrever o que nos vinha à cabeça, mostrá-lo para além dos costumeiros caminhos da intelectualidade local, fazer qualquer coisa que pudesse estremecer.

Parte de nós andava também pelos corredores da Faculdade de Letras de Lisboa, onde outras revistas, de outras latitudes, nos faziam sentir um pouco mais próximos desse ambiente mítico da revista literária. Será que a partir de Torres Vedras iríamos ser capazes de iniciar algum movimento que fosse marcante para o mundo? Não éramos muito ambiciosos. Era quase impossível. Por isso se chamou a revista “quase”.

Esteve quase para não acontecer. Assentámos como lugar de reuniões o Café Europa, na Rua Dr. José Bastos, por conveniência de morada. Não por acaso, por ali também se encontravam, à altura, alguns daqueles a quem pretendíamos desagradar. O caminho entre o que é velho e o que é novo, tantas vezes demasiado curto para se fazer de outra maneira que não seja pelo próprio pé.

O Café Europa era um lugar familiar (ainda é). Almoços para gente de escolas, tardes lânguidas de cigarros na pequena esplanada na arcada, noites que se despiam entre o raro jogo de futebol na televisão e as cervejas frescas. Alguma vez terá saído dali alguma ideia brilhante? Algum rasgo de génio? Era um lugar agradável.

Esteve quase para ser apenas uma folha de papel. Estudantes de Letras não têm dinheiro para grandes aventuras tipográficas. Mas, entre as muitas reuniões de nada decidir, apenas discussão que não saía do sítio (estávamos todos tão perto de casa), lá se foram encontrando formas de transformar o nada em alguma coisa, ainda que nenhum de nós tivesse talento para pedinte.

O Académico de Torres Vedras abriu-nos as portas para assegurar que a coisa iria a algum lado (revistas literárias, na cidade, já se tinha visto, com certeza que sim). Conformou-se um patrocinador na Fundição de Dois Portos e alinhavou-se o que seria, então, o primeiro corpo editado da coisa a sair.

A mim coube-me dirigir o que não tinha encontrado direção. Ao Rui Matoso, com ajuda do Bruno Henriques da Sogratol, um programa para conjugar imagens e letras em desalinho. O Renato e o Nico completavam um conselho editorial pouco aconselhável. Por amizade ou por contacto de e-mail (houve um cartaz mal amanhado exposto nos corredores da FLUL), as contribuições estenderam-se, para lá de Torres Vedras, até a malta de Letras e estudantes da ESTGAD das Caldas.

Em abril de 2001 fez-se a apresentação formal. Não morreu ninguém. Olhando para quem figura na ficha técnica desse número zero, há um comentador de futebol, professores universitários ou do ensino secundário, produtores artísticos, o diretor de uma companhia de teatro, a diretora de uma galeria municipal. Entre eles, vários com livros publicados. A “quase” viria a ter mais quatro edições, seguindo-se a sua sucessora, “Sítio”, com mais seis.

No entanto, convidaram-me para escrever sobre a noite, os seus bares e cafés. Isto parece não ter nada que ver com o que me foi pedido. Comecei pelo fim, hei-de conseguir chegar, também, ao início. Não sei se vos disse, pelo caminho, que, neste caso, não morreu ninguém. Não sei se estou a escrever a verdade.