ENTREVISTA – 01/04/2020

Entrevista com André Avelar

A propósito da exposição “Carne”, patente na Paços – Galeria Municipal de Torres Vedras até 15 de março de 2020, o Coletivo Fantasma esteve à conversa com o autor.

O que é para ti esta “Carne” que nos ofereces ao olhar?

É uma carne que se coisifica, que por fetichismo se oferece à condição de objeto. Pode ser a minha/nossa carne, ou na gíria carne para canhão, fica para o espetador a responsabilidade de lhe atribuir significado.

Como defines o papel da arte e do artista contemporâneos perante a nossa sociedade?

Alimento ainda a ideia romântica, já muito antiga, o papel da arte na denúncia da alienação, na rutura e regeneração, afirmando uma sociedade mais justa, mais ética e mais democrática. Acabo claramente sem ilusões por concordar com o crítico e historiador Hal Foster, quando este afirma que o caminho neoliberal do pós-modernismo vingou, a arte perdeu a capacidade crítica pela qual lutou, rendeu-se ao seu fracasso e tornou-se num qualquer outro bem de consumo, uma mercadoria sujeita e diminuída às regras da sociedade do espetáculo, onde a aparência se sobrepõe à essência. É urgente reconhecer que as motivações e reivindicações vanguardistas não se encontram no passado e sim enunciam a necessidade de uma arte crítica.

Há, para ti, uma função da arte?

Levantar questões e mais questões e mais questões. Existe uma certa tendência de tentar retirar significados ou respostas universais perante uma obra, como se de um manual de instruções e bons hábitos se tratasse, será sempre um exercício fútil e inalcançável. Claro que se retiram interpretações dessas interrogações, mas estarão sempre condicionadas à bagagem individual de cada um, aos seus interesses e experiências. A arte produz o seu próprio conhecimento, já desde a Grécia Antiga existe a consciência de que a arte é um acontecimento gerado no mundo das ideias e uma obra é apenas um pedaço materialmente finito dessa multiplicidade infinita, dessa verdade que jamais se poderá materializar e dar a ver num objeto.

Existem três questões que a meu ver traduzem a relação com a arte e com a vida, e na eterna tentativa de resposta às mesmas atribuo a “função” de todas as formas de arte. Questões universais, desde que o homem deixou de ser uma besta, do paleolítico ao século XXI, as célebres interrogações que Gauguin no século XIX colocou na sua afamada pintura “De Onde Viemos? O que somos? Para Onde Vamos?”.
“Existe uma certa tendência de tentar retirar significados ou respostas universais perante uma obra, como se de um manual de instruções e bons hábitos se tratasse, será sempre um exercício fútil e inalcançável.”
André Avelar

Quais são as tuas maiores influências?

A ficção científica claramente, cresci a ver filmes e a ler sobre futuros distópicos, ciborgues, androides e robôs, vejo tudo, dos filmes de culto de autores aclamados, a autores menos conhecidos como o Shinya Tsukamoto , cuja a trilogia Tetsuo acho fantástica e pela qual continuo a ser influenciado ano após ano.

No âmbito das artes visuais o movimento Dada, lembro-me bem das aulas de História da Arte no ensino secundário, quando entramos no modernismo e conheci as colagens, assemblages, fotomontagens, filmes experimentais do dadaísmo. A partir dai o Dada não mais me largou, adorei aquele universo ilógico e absurdo, Hannah Hoch, Francis Picabia, Man Ray entre outros mas sobretudo as representações híbridas de homem com máquina do Raoul Hausmann, criaturas estranhas que mais tarde seriam consideradas representações iniciais do que hoje identificamos como ciborgues.

Francis Bacon é sem dúvida outra grande influência, adoro as figuras disformes, sofridas, as cores e a composição, inevitavelmente de forma inconsciente dou por mim a copiar o senhor.

Que outros ecos nos transmite o teu trabalho?

Difícil responder, porque não teorizo muito sobre o meu trabalho, talvez por incapacidade. As coisas surgem por necessidade de ver no papel, ou outro meio, algumas imagens que me surgem na cabeça, frutos dos meus interesses e inquietações, do que me define como individuo que forçosamente vive neste momento socio-histórico. Penso que se podem encontrar ecos comuns às referências que citei anteriormente, da ficção científica na figura do ciborgue ao universo dadaísta e talvez outras questões da atualidade, da nossa relação com os bens de consumo, o mito da abundância e as consequências à vista de todos.

É possível criar várias sendas discursivas perante a “leitura” e o confronto com a tua obra. O que te moveu a abordar um tema tão rizomático, inacabado e pouco consensual como o da Carne?

O título desta exposição surgiu de dois trabalhos da série que conclui em 2019, os dois trípticos que estão na sala II dos Paços do Concelho, o Carne I e Carne II, nesses trabalhos são apresentadas peças de carne, que por sinal nem é humana, em confronto ou diálogo com outras imagens, de caracter religioso e construções que se assemelham a maquinas mas cujo o propósito parece indecifrável. Não existindo uma narrativa de qualquer natureza ali, achei interessante essa relação de equiparação de objetos, que poderá ou não, levantar as tais questões da relação do corpo com a máquina ou da idolatria da máquina. No fundo acho que o que apresento ali e nas restantes peças dessa série são pequenas provocações que interrogam de que carne afinal se trata, se é a carne que move a máquina, que anseia a máquina, que é corpo e matéria, o lugar da consciência ou a carne que alimenta? Não sei, a minha carne é de certeza, nesses trípticos que nomeiam a exposição é clara a influência de Francis Bacon que já referi, embora de forma inconsciente, assim termino a resposta citando uma célebre frase dele: “Se vou a um talho acho sempre surpreendente não estar ali eu em vez do animal.”

Nota-se uma clara relação da tua expressão com a questão da tecnologia. Falamos de uma segunda carne do humano ou de um processo de hibridização sem retorno?

Hibridização sem retorno claramente, a tecnologia tornou-se prostética e o corpo quase se mostra obsoleto, incapaz de funcionar plenamente, a máquina quer se fazer corpo e colocou o corpo numa situação de potencial inadequação perante as constantes mudanças no meio envolvente, num ponto crítico que exigirá o redesenho e poderá levar a direções evolutivas radicais.

A analogia entre modelos biológicos e tecnológicos de evolução disseminou-se, já está presente na nossa realidade social vivida e não apenas no reino da ficção científica. Pelo meio da ficção científica vou lendo também alguns autores como o Keith Ansell-Person, James Hughes, J.D. Bernal a Donna Haraway entre outros que exploram cientificamente e filosoficamente a condição transumana, abordagens interessantíssimas, umas otimistas outras pessimistas, algumas aterradoras, pelo menos para mim. Muitos defendem a entrega total à tecnologia, a negação do corpo. Numa fase inicial a hibridização, mas apenas um processo intermédio até ser possível uma existência totalmente artificial, ascética, até mesmo imortal, no que seria para esses autores uma versão humana melhorada, para mim tudo menos humano.

A obsolescência, o ritual, as questões de género e a ideia de uma inescapável finitude são constantes nesta tua exposição. Como vês o corpo de hoje em relação ao conceito de corpo sem órgãos que procuras convocar?

Ainda no conceito do transumanismo que referi anteriormente, inquieta-me essa abordagem do corpo como abjecto, fraco, perecível e desnecessário, que deve ser ultrapassado, é uma abordagem muito próxima aos fanatismos religiosos que afirmam o corpo como local imundo, pecaminoso que aprisiona a alma e ao qual todos os desejos devem ser negados. É exatamente nessa noção de obsolescência que centro as minhas interrogações e inquietações, onde apresento corpos sem objetivo, disfuncionais, derrotados. Corpos que perante a tal pergunta ancestral “Para onde vamos?” respondem através de uma imagética distópica, destruídos e sem destino.

O que te inquieta nestes tempos que correm? Sobre a dinâmica cultural no nosso território, o que gostarias de apontar?

Numa cidade com ótima localização geográfica, com infraestruturas, algumas das quais de muito boa qualidade penso que está tudo muito inerte e subaproveitado, acho incompreensível ver alguns espaços com condições ótimas praticamente parados, com programações vazias, vazios de pessoas e vazios de ideias.

Existem alguns eventos culturais de bandeira, que todos conhecemos, nos quais se investe e bem mas no âmbito das artes visuais muito pouco é dado a ver, forçosamente deveria existir mais interesse pelo que cá se faz e apoiar com acesso às infraestruturas. Aproveitar também a proximidade com Lisboa, Caldas da Rainha, construir dinâmicas de intercâmbio, que atraia novos públicos, que traga artistas de outros locais e estabeleça contactos e parcerias para que os artistas locais possam mostrar o seu trabalho noutros contextos.

Para finalizar, com tantos edifícios camarários devolutos, com a pressão imobiliária a causar a fuga de Lisboa, a cidade só ganharia ao aproveitar um ou outro desses imóveis e criar ateliers de rendas acessíveis para que alguns desses artistas fugitivos aqui se fixassem, trabalhassem contribuindo para a dinâmica cultural da cidade, será certamente um propósito bem mais digno que a ruina e total degradação.